LÍNGUA PORTUGUESA

Módulo

LP079
COMUNICAÇÃO E SOCIEDADE

As funções da crônica

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O cotidiano sob um novo olhar

Intimamente associada ao jornalismo, a crônica constitui o espaço em que a arte literária reinventa a realidade, oferecendo ao leitor a possibilidade de evadir-se do cotidiano estéril e veloz que caracteriza os cenários urbanos. 

A evolução da crônica

Do grego krónos, tempo; do latim annu(m), ano; ânua, anais. O vocábulo “crônica” mudou de sentido ao longo dos séculos. Empregado primeiramente no início da era cristã, designava uma lista ou relação de acontecimentos, arrumados conforme a sequência linear de tempo. Colocada, assim, entre os simples anais e a História propriamente dita, a crônica se limitava a registrar os eventos, sem aprofundar-lhes as causas ou dar-lhes qualquer interpretação.

Em tal acepção, a crônica atingiu o ápice na Alta Idade Média, ou seja, após o século 12. Nessa altura, porém, acercou-se francamente do polo histórico, o que determinou uma distinção: as obras que narravam os acontecimentos com abundância de pormenores e algo de exegese, ou fundando-se numa perspectiva individual da História, recebiam o tradicional apelativo de “crônica”, como, por exemplo, as obras de Fernão Lopes (século 14).

Em contrapartida, as simples e impessoais notações de efemérides, ou “crônicas breves”, passaram a denominar-se “cronicões”. Tal discriminação, somente possível em português e espanhol, não atingiu o francês e o inglês, que englobam os dois tipos sob um rótulo comum (chronique, chronicle). A partir do Renascimento (século 16), o termo “crônica” começou a ser substituído por “História”.

Com a significação moderna, o vocábulo entrou em uso no século 19, para rubricar textos que só longinquamente se vinculam à primitiva forma de crônica: ostentam, agora, estrita personalidade literária. Assim entendida, a crônica teria sido inaugurada pelo francês Jean Louis Geoffroy, em 1800, no Journal dês Débats, em que periodicamente estampava feuilletons.

Seus imitadores entre nós, aparecidos depois de 1836, traduziam o termo para “folhetim”, mas já para a derradeira quadra do século a palavra “crônica” principiou seu curso normal. De lá para cá, o prestígio da crônica não tem deixado de crescer, a ponto de haver os que a identificam com a própria Literatura Brasileira ou a consideram nossa exclusividade. Machado de Assis, Olavo Bilac, João do Rio, Humberto de Campos, Raquel de Queiroz, Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Carlos Drummond de Andrade, Fernando Sabino, Henrique Pongetti e tantos outros cultivaram-na ou cultivam-na com peculiar engenho e assiduidade.

Correspondendo ao que em Inglês se chama commentary, literary column, sketch, light essay ou human interest story, a crônica de feição moderna, via de regra publicada em jornal ou revista e muitas vezes reunida em volume, concentra-se num acontecimento diário que tenha chamado a atenção do escritor, e semelha à primeira vista não apresentar caráter próprio ou limites muito precisos. Na verdade, classifica-se como expressão literária híbrida, ou múltipla, de vez que pode assumir a forma de alegoria, necrológio, entrevista, invectiva, apelo, resenha, confissão, monólogo, diálogo, em torno de personagens reais e/ou imaginárias etc.

A análise dessas várias facetas permite inferir que a crônica constitui o lugar geográfico entre a poesia (lírica) e o conto: implicando sempre a visão pessoal, subjetiva, ante um fato qualquer do cotidiano, a crônica estimula a veia poética do prosador; ou dá margem a que este revele seus dotes de contador de histórias. No primeiro caso, o resultado pode ser um autêntico poema em prosa; no segundo, um conto. Quando não se define completamente por um dos extremos, a crônica oscila indecisa numa das numerosas posições intermediárias; no geral, contudo, tenderá ou para o lirismo ou o conto, que traduzem ou a elevada subjetividade na transposição do acontecimento, ou a sua dramatização, que confere ao cronista um papel de espectador. Em ambas as situações, para que a crônica ganhe foros estéticos, há de prevalecer o poder de recriação da realidade sobre o da mera transcrição.

Modalidade literária sujeita ao transitório e à leveza do jornalismo, a crônica sobrevive quando logra desentranhar o perene da sucessão anódina de acontecimentos diários, e graças aos recursos da linguagem do prosador. Sucedendo tais circunstâncias, afigura-se que a “inspiração” do escritor apenas se materializou em crônica por uma feliz coincidência entre o fato passageiro e as matrizes de sua faculdade criadora. Fora daí, a crônica vai envelhecendo à medida que o evento determinante se distancia no tempo, tragado por outras ocorrências igualmente rumorosas e passíveis de gerar equivalentes crônicas. De onde a sensação de se tratar, em última instância e não obstante seus talentosos cultores, de um produto literário inferior, comparativamente à poesia, ao conto, à novela, ao romance e ao teatro.


MOISÉS, M. Dicionário de termos literários. São Paulo: Cultrix, 1974.

Desvendando a crônica!

1) Um gênero menor?

Você leu na Contextualização a opinião de Massaud Moisés, segundo a qual a crônica, comparada a gêneros como o romance, a poesia e o conto, seria uma expressão literária “menor”.

Pesquise e comente motivos que embasem este raciocínio. Verifique se há quem, entre os estudiosos e escritores, discorde dessa concepção. Depois classifique a crônica segundo seus subgêneros.


Massaud Moisés Fonte: 3.bp.blogspot.com




2) Na seara do jornalismo

A crônica brasileira guarda íntima relação com a imprensa, principalmente o jornal.

Qual sua função no contexto do jornalismo? Ao longo do tempo, essa função modificou-se, acompanhando a evolução experimentada pelos jornais?


Machado de Assis, presença assídua nas páginas da imprensa do século 19 Fonte: reidaverdade.com




3) Estrutura

Leia as duas crônicas a seguir:

 

O pavão (de Rubem Braga)

Eu considerei a glória de um pavão ostentando o esplendor de suas cores; é um luxo imperial. Mas andei lendo livros, e descobri que aquelas cores todas não existem na pena do pavão. Não há pigmentos. O que há são minúsculas bolhas d'água em que a luz se fragmenta, como em um prisma. O pavão é um arco-íris de plumas.

Eu considerei que este é o luxo do grande artista, atingir o máximo de matizes com o mínimo de elementos. De água e luz ele faz seu esplendor; seu grande mistério é a simplicidade.

Considerei, por fim, que assim é o amor, oh! minha amada; de tudo que ele suscita e esplende e estremece e delira em mim existem apenas meus olhos recebendo a luz de teu olhar. Ele me cobre de glórias e me faz magnífico. (BRAGA, 1960, p. 149.)

 

Pretensão (de Luís Fernando Veríssimo)

Contam que Pablo Picasso nunca tinha dinheiro no bolso. Quando ele acabava de jantar num restaurante, o dono aproximava-se da mesa com a conta, esperançoso, e perguntava:

- O senhor vai pagar ou vai assinar?

Picasso fazia uma mímica de procurar dinheiro nos bolsos e acabava assinando a nota, que o dono do restaurante mandava emoldurar e depois vendia como um Picasso autêntico, por muito mais que o valor do jantar.

Quando a comida estava especialmente boa ou o grupo de Picasso era maior, ele, em vez de assinar a nota, fazia uma rápida pomba ou odalisca na toalha, que mesmo com manchas de molho e vinho passava a valer uma fortuna. Ou então improvisava uma escultura com rolhas, miolo de pão e palitos, e a presenteava ao dono eufórico.

Certa vez Picasso mandou a empregada fazer o rancho e lhe deu um desenho para pagar a conta. Um bico de pena razoavelmente bem acabado, pois a conta seria grande. A empregada voltou com as compras e um desenho horroroso feito num papel de embrulho, que entregou a seu patrão. Embaixo estava a assinatura: “Pinot”.

- O que é isso? – perguntou Picasso, segurando o papel com a ponta dos dedos.

- O Monsieur Pinot, do armazém, mandou.

- Por quê?

- Ele disse que é o troco.

Naquele mesmo dia Picasso fez questão de passar pelo armazém do Monsieur Pinot, e o olhou com admiração. Finalmente encontrara um ego maior que o seu. (VERíSSIMO, 1995)

 

Com base nos dois exemplos acima e, se necessário, fazendo uma pesquisa, você pode dizer como é a estrutura básica de uma crônica?


Rubem Braga (1913 - 1990): sensibilidade para captar o lírico no cotidiano Fonte: thtv.com.br




4) O cotidiano no ônibus

Leia esta crônica de Carlos Drummond de Andrade:

 

No lotação

Com o advento dos rádios transistores, o esporte, os fuxicos internacionais e a música popular passaram a ser nossos companheiros de viagem no ônibus e no lotação. Por isso não estranhei ao ouvir, em surdina, “areia da praia branquinha, branquinha, o vento levou o amor que eu tinha”. Olhando por olhar, não vi aparelho receptor junto ao ouvido do rapaz que se sentara a meu lado, e era junto de mim que a canção abria suas pétalas. O rapaz — moreninho, magro, terno escuro bem passado, de pobre caprichoso — tinha o rosto voltado para a rua, sua boca mal se entreabria. Cantava para fora do veículo e para dentro de si mesmo. Parecia ausente, perdido talvez em extensa praia de areia alva, à procura de marcas de pés desaparecidos.

Depois, cantou “se mil vezes você me deixar e voltar, eu aceito”, e o fez um pouco mais alto. Passageiros viraram o pescoço para ver de onde se exalavam essas falas de amor. Não queriam acreditar que alguém cantasse no interior do lotação. Rádio se tolera. Mas voz humana, próxima, direta? Dois deles fumavam, perto da inscrição que proíbe expressamente fumar no recinto, sob pena de multa. É tão natural desobedecer a uma proibição, como absurdo fazer alguma coisa que não desobedece a nada, mas não foi expressamente permitida: esta, sim, é a verdadeira, sutil infração. O rapaz cantava, sem proibição escrita. Era quase um fenômeno.

Sem dúvida, no espírito de alguns passou a ideia de reclamar. Mas sempre se espera que alguém o faça por nós. Havia o medo do ridículo, a possibilidade de um incidente desagradável. Dizer que o rapaz estava perturbando o sossego dos passageiros seria demais. Que sossego? A viagem é cheia de rangidos, trancos, finos, freadas bruscas, berros de outros motoristas. Ele cometia uma ação inusitada, mas indefinível. Cantava. Cantava por si, talvez por nós, que não sabemos ou temos vergonha de cantar. Até que não cantava mal. “O amor, meu bem, não diz quando vem nem manda avisar ao coração.” Não podendo fazer nada contra o rapaz, uns sorriam, esse sorriso superior dos que sabem que não é direito cantar no lotação, mas que toleram, em nome da boa educação, a falta sonora de educação. Só as mulheres ficaram hirtas e neutrais como se não estivessem ouvindo nada, e portanto não fossem obrigadas a tomar atitude. É admirável nas mulheres esse fazer-de-conta, que lhes confere uma dignidade facial absoluta diante daquilo que elas não sabem como interpretar.

O cantor continuava a exalar o seu cancioneiro de penas de amor, de esperanças e juras cálidas. Sempre alheio à reação dos companheiros de viagem, sempre olhando para a rua ou para além da rua, variando de letras. No Flamengo, calou-se. Tirou o cigarro, acendeu-o devagar, as pessoas começaram a sentir a estranheza do silêncio, afinal não era mau ir para o trabalho ouvindo uma voz razoável falar de ternuras e praias enluaradas. Mas seria arriscado pedir-lhe que continuasse. Ele preferiu assobiar uma das músicas. Não era a mesma coisa. Terminado o cigarro, voltou a cantar, sério, longínquo.

Ao descer no Castelo, tive vontade de tocar-lhe no braço e dizer-lhe: “Obrigado, amigo”. Lembrei-me, porém, daquele grego de “Nunca aos domingos”, que dançava pelo prazer de dançar, e não admitia aplausos. Saí, com a cara mais indiferente do mundo. (ANDRADE, s/d.)

 

Que características tem o texto de Drummond? Identifique passagens na crônica em que estão presentes essas características. Como o autor retrata o cotidiano?


Carlos Drummond de Andrade (1902 - 1987) Fonte: 2.bp.blogspot.com




5) Hibridismo de linguagem

A seguir, trechos da crônica Amor vem antes e sexo vem depois, ou não, e a crônica Dois filmes profetizaram o presente, ambas do jornalista, cineasta e cronista Arnaldo Jabor. A primeira crônica serviu de base para a canção Amor é prosa, sexo é poesia, de Rita Lee.

Os textos de Jabor são ótimos para que se possa observar o hibridismo de linguagens característico do gênero. Explique o por quê da afirmação anterior.

 

Amor vem antes e sexo vem depois, ou não

O amor tem jardim, cerca, projeto. O sexo invade tudo isso. (...)

O amor é um desejo de atingir a plenitude. Sexo é o desejo de se satisfazer com a finitude. (...)

Amor é o sonho por um romântico latifúndio; já o sexo é o MST. O amor é mais narcisista, mesmo quando fala em “doação”. Sexo é mais democrático, mesmo vivendo no egoísmo. Amor e sexo são como a palavra farmakon em grego: remédio e veneno. (...)

Amor é um texto. Sexo é um esporte. (...)

O amor vem de dentro, o sexo vem de fora, o amor vem de nós e demora. O sexo vem dos outros e vai embora. Amor é bossa nova; sexo é carnaval. (...)

O ódio mata o amor, mas o ódio pode acender o sexo. Amor é egoísta; sexo é altruísta. O amor quer superar a morte. No sexo, a morte está ali, nas bocas... O amor fala muito. O sexo grita, geme, ruge, mas não se explica. O sexo sempre existiu — das cavernas do paraíso até as saunas relax for men. Por outro lado, o amor foi inventado pelos poetas provençais do século 12 e, depois, revitalizado pelo cinema americano da direita cristã. Amor é literatura. Sexo é cinema. Amor é prosa; sexo é poesia. (...)

O amor domado protege a produção. Sexo selvagem é uma ameaça ao bom funcionamento do mercado. Por isso, a única maneira de controla-lo é programa-lo, como faz a indústria das sacanagens. O mercado programa nossas fantasias. Não há saunas relax para o amor. (...) (JABOR, 2003)

 

Dois filmes profetizaram o presente

Em 1996, escrevi sobre dois filmes que me arrepiaram a espinha.

Um deles foi o Forrest Gump e o outro o Independence Day, filme catástrofe-ufanista que todos viram. Foram dois sucessos internacionais e dois recados para o mundo de hoje. Não era preciso ser profeta para ver nosso triste presente nos filmes americanos dos anos 90. Relendo hoje os dois textos, vejo que as condições objetivas para a "desconstrução" do mundo atual já estavam sendo cozinhadas no fogão das bruxas. Dava para ouvi-las cantando, como em Macbeth: "Something wicked this way comes" (Coisas terríveis vêm por aí...)

Na era Clinton a sabotagem dos republicanos já estava rolando. Não deram um minuto de sossego para o homem. A cada dia inventavam uma nova sacanagem. Foram acusações imobiliárias em Whitewater, pecados em Little Rock, até que, um belo dia, caiu do céu o "boquete" fatal da Monica Lewinsky, dando chance ao promotor Kenneth Starr de liderar a campanha mais implacável que vi na vida e que hoje se consolida com a recente vitória dos "tea parties" fascistas, a Ku Klux Klan do Capitólio. Hoje já dá para ver que as administrações democratas, dos anos 60 até Clinton foram fogos-fátuos; vemos que os democratas são exceções fortuitas, pois a verdadeira América tem um DNA republicano.

Naqueles filmes, já estava inscrito o desejo psicótico desse país, que sempre teve a capacidade de se autocriticar e reformar, mas que agora talvez esteja num estágio de inexplicável autoimolação. O cinema americano sempre foi um sintoma.

Quando eu vi Forrest Gump, percebi (e escrevi) que alguém como Bush viria nos infernizar a vida. Estavam ali os sinais.

Primeiro, me espantou o infinito sucesso de Forrest Gump. Foi uma bilheteria gigantesca. Por quê? — pensei. E escrevi que aquele filme transformara 30 anos da história americana num trem de banalidades, desmoralizando as lutas românticas que a América travou nos anos 60, 70. Um raro analista do New Yorker disse: o filme "reduz o tumulto das últimas décadas a um parque temático de realidade virtual: uma versão da Disney para os baby boomers".

É o que acho.

Forrest Gump condena os que criticaram o conformismo e o preconceito. Tudo aquilo que contestou o sonho americano, tentando aperfeiçoá-lo, é ridicularizado para impor uma suprema "sabedoria do idiota", superior a qualquer reflexão culta ou politicamente moderna. O movimento negro foi transformado num grupo de loucos que espancam mulheres, os hippies, liderados por um Abbie Hoffman imbecil, parecem mendigos e palhaços, as liberdades sexuais conquistadas são viradas em sujas orgias pecaminosas e decadentes, os heroicos veteranos do Vietnã, aleijados e abandonados, foram retratados como detestáveis mentirosos, numa justificação sobre covardes como o Bush que, na época, vivia alcoolizado no Texas, fora da guerra, pelas graças do seu papai.

No filme, a namorada de Gump, Jenny, é punida por seus excessos, já que ela foi hippie, namorou um negro, contestou a guerra em Washington. Por isso, morre castigada por um vírus misterioso, uma clara sugestão da aids. Escrevi na época: "Forrest Gump é o precursor do que seremos. Ele é o habitante ideal da sociedade conformista do futuro. É o idiota que venceu."

Bush, em 2004, discursou em Yale para os alunos: "Eu sou a prova de que um mau estudante pode ser presidente...!"

Gump foi lançado em 95. E, logo depois, em 96, um outro filme prefigura a América e o mundo de hoje: Independence Day - e não só ele, mas outros como Godzilla, Deep Impact, Armagedon...

Também senti um arrepio do horror: se Forrest Gump era o personagem, Independence Day criava o cenário e o contexto.

Para quem não viu, Independence Day conta a história de ETs invadindo os Estados Unidos. Com o fim da Guerra Fria, os americanos ficaram sem inimigos claros. No imaginário de Hollywood, os inimigos passaram a ser os rebeldes e psicopatas antissociais que Gump condena ou então, no caso de Independence, os ETs — uma clara metáfora para invasores estrangeiros. Quem seriam eles? Os chicanos, talvez, os islâmicos, os excluídos, nós — de Governador Valadares? Quem tinha ocupado o lugar dos comunistas? Em plena propaganda da "globalização liberal", que ainda se considerava multilateral, já estava ali, visível a olho nu, o nacionalismo republicano se preparando, o protecionismo e a paranoia unilateral contra o resto do mundo.

E mais: o filme denotava um desejo inconsciente de autodestruição.

Escrevo em 96: "O filme atende aos desejos dos terroristas. (Muito antes de Osama Bin Laden agir como um cineasta de filme-catástrofe.) No filme, a América é destruída com fogo e sangue, espatifada com amor e ódio. No filme, vemos um pavoroso "delírio de ruína" misturado com um patriotismo vingativo. Os marginais e vagabundos (como os contestadores dos anos 60) vibravam na cena em que os ETs destroem a Casa Branca".

Quando vi Forrest Gump tive um mal-estar de que algo importante estava mudando, quando vi Independence Day tive a visão esquisita de um futuro muito torto. Senti que a barra pesaria nos Estados Unidos, vi que o Godzilla republicano já andava solto.

Aí, o 11 de Setembro chegou e disparou a nova era.

Hoje, estamos assistindo à síntese desses dois filmes sintomáticos: imbecis reacionários tomando o poder contra o Barack Obama ("negro comunista com nome islâmico que tem de ser destruído") e as receitas econômicas que enfiaram na goela do presidente negro, que são o contrário do necessário — fórmulas que levarão os Estados Unidos a uma derrocada maior do que a que Bush conseguiu na imagem do país. Forrest Gumps destroem o país como em Independence Day.

Agora, sinto medo e depressão. A ficção virou realidade? Ou será o contrário? (JABOR, 2011)


Arnaldo Jabor Fonte: 4.bp.blogspot.com




6) O olhar em torno de si

O mineiro Fernando Sabino (1923 – 2004) é um dos grandes nomes da crônica brasileira. Com apenas 18 anos publicava seu primeiro livro, Os grilos não cantam mais (1941), no Rio de Janeiro. Foi também jornalista. Na adolescência, trabalhou como locutor de rádio. Mudou-se para o Rio de Janeiro em 1944. Aí formou-se em Direito. Conheceu Vinícius de Moraes, de quem se tornou grande amigo — viajaram juntos para os Estados Unidos, onde o cronista viveu por dois anos. O encontro marcado (1956) foi traduzido para diversos idiomas e adaptado para o teatro. Por volta de 1957, começou a publicar suas crônicas no Jornal do Brasil. Com O grande mentecapto (1979), obra levada para o cinema e para o teatro, conquistou o Prêmio Jabuti. Em 1999, a Academia Brasileira de Letras lhe conferiu o Prêmio Machado de Assis, pelo conjunto da obra.

A seguir, uma das mais importantes crônicas de Sabino:

 

A última crônica

A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever. A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de correr com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num incidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: ”Assim eu quereria o meu último poema”. Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar para fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.

Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, torna-se mais evidente pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional de família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.

Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os dois lados, a assegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado, o garçom encaminha a ordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha a porção de bolo com a mão, larga-a no pratinho — um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma fatia triangular.

A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.

São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente, põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a seus pais que se juntam, discretos: “Parabéns pra você…” Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura — ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que caiu no colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer, intimamente, do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido — vacila, ameaça abaixar a cabeça —, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.

Assim eu quereria a minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso. (SABINO, 1965)

 

Agora que você já leu esta magnífica crônica de Sabino, discorra sobre os recursos metalinguísticos usados pelo autor para abordar o que todo cronista, mais cedo ou mais tarde, enfrenta: a falta de assunto. O que mais lhe chamou a atenção?


Fernando Sabino Fonte: 3.bp.blogspot.com



Agora é a sua vez!

Aviso

*Utilize as ferramentas de autoria e colaboração (Fórum, Sala de Reuniões, Editores etc.), disponíveis no ambiente MAGIC tendo em vista o desenvolvimento das questões propostas na Problematização e na Avaliação.

Confira as respostas!

1)

Definir a crônica como gênero literário “maior” ou “menor” guarda uma certa subjetividade, pois tais definições dependem do modo de apreciação do crítico ou do estudioso. Alguns dão ênfase a certos aspectos da crônica, como o fato de ser feita, em geral, em pouco espaço de tempo, para acompanhar a periodicidade dos jornais e adequar-se ao ritmo de cobertura jornalística do noticiário, e também por ela constituir um texto curto, o que a colocaria em desvantagem em relação a obras de maior fôlego, como o conto, a novela ou o romance. Outros, valorizando-a, enfatizam o lirismo de que os cronistas lançam mão para transcender o cotidiano, enriquecendo o texto a ponto de torná-lo literariamente rico.

A mestre em Letras e Crítica Literária Joselina Alves Cardoso pesquisou o assunto para sua dissertação e intitulada Crônica literária no jornal: história, estrutura e funcionamento. Ela registrou a opinião do crítico Antonio Candido sobre a crônica:

Antonio Candido (1992), ainda que a contragosto, reconhece o papel menor que a crônica representa no universo ficcional brasileiro, por não imaginar uma literatura feita exclusivamente por cronistas (apesar de que Rubem Braga vai de encontro a essa visão): “A crônica não é um “gênero maior”. Não se imagina uma literatura feita de grandes cronistas, que lhe dessem o brilho universal dos grandes romancistas, dramaturgos e poetas. Nem se pensaria em atribuir o Prêmio Nobel a um cronista, por melhor que fosse. Portanto, parece mesmo que a crônica é um gênero menor."

Candido, ao considerar a crônica um “gênero menor”, leva em conta basicamente a produção em grande escala de textos universalmente conhecidos, como ocorre com romances, contos, dramas. Vejamos outro trecho em que ele discute a aparente miudeza da crônica e as razões que levam a esse raciocínio: “Ao longo deste percurso, foi largando cada vez mais a intenção de informar e comentar (deixada a outros tipos de jornalismo), para ficar sobretudo com a de divertir. A linguagem se tornou mais leve, mais descompromissada e (fato decisivo) se afastou da lógica argumentativa ou da crítica política, para penetrar poesia adentro. Creio que a fórmula moderna, em que entra um fato miúdo e um toque humorístico, com o seu quantum satis de poesia, representa o amadurecimento e o encontro mais puro da crônica consigo mesma." (CANDIDO, 1992). 

No texto Ensaio e crônica, Afrânio Coutinho (2003) assim a define: “Gênero literário de prosa, ao qual menos importa o assunto, em geral efêmero, do que as qualidades de estilo, a variedade, a finura e argúcia na apreciação, a graça na análise de fatos miúdos e sem importância, ou na crítica de pessoas.”

Em seguida, o autor (2003) comenta o rebaixamento do gênero a um degrau inferior: “Tão característica é a intimidade do gênero com seu veículo natural que muitos críticos se recusam a ver na crônica, a despeito da voga de que desfruta, algo durável e permanente, considerando-a uma arte menor."

Coutinho (2003), juntamente com Jorge de Sá e Antônio Dimas (1974), integra um grupo de teóricos que reconhece as peculiaridades do gênero, sem por isso julgá-lo menor. Falta definir a “intimidade” que tornaria a crônica tão inseparável do jornal, visto que o fato de diversos romances terem sido publicados primeiramente em folhetins, no século 19, não os descaracteriza enquanto literários (embora a maioria deles tenha sido revista para a publicação em livro).

Mais poéticas ou mais bem humoradas, mais sensíveis ou mais debochadas, a vasta gama de possibilidades da crônica indica sua complexidade, seus limites imprecisos, as largas opções de desenvolvimento. Aproximar-se mais do jornalismo ou da literatura está a cargo do escritor. É ele quem escolherá a via por onde irá discorrer. Se tiver talento e puser o esforço intelectual necessário, poderá sobrepujar a efemeridade, como assinala Coutinho (2002): “(...) somente será considerado gênero literário quando apresentar qualidade literária, libertando-se de sua condição circunstancial pelo estilo e pela individualidade do autor”.

Os textos literários — romances, contos, poesias — que se notabilizaram pela qualidade tiveram seu valor ora pelo conteúdo, ora pelo estilo, e muitas vezes por ambos. O mesmo se dará com a crônica, na medida em que o autor souber sobrelevar a circunstância ou fizer brilhar uma estilística própria.

Com relação à subdivisão do gênero crônica, também não há um consenso estabelecido entre os estudiosos, conforme a pesquisa da professora Aimé (2008).

Para Antonio Candido (1992):

- Crônica-diálogo: quando o cronista e seu interlocutor se revezam trocando pontos de vista e informações (ex.: Carlos Drummond, Fernando Sabino).

- Crônica narrativa: quando apresenta alguma estrutura de ficção, semelhante ao conto (ex.: Ruben Braga).

- Crônica exposição poética: quando faz uma divagação sobre um acontecimento ou personalidade, tecendo uma série de associações (ex.: Paulo Mendes Campos).

- Crônica biográfica lírica: narrativa poética da vida de alguém (ex.: Paulo Mendes Campos).

Afrânio Coutinho (2002) descreve cinco:

- Crônica narrativa: quando se desenvolve em torno de uma estória ou de um episódio, o que a aproxima do conto (ex.: Fernando Sabino).

- Crônica metafísica: quando o autor tece reflexões filosóficas  sobre acontecimentos ou homens (ex.: Machado de Assis e Carlos Drummond).

- Crônica poema-em-prosa: de conteúdo lírico, seria o “extravasamento da alma do artista”, povoada de “episódios cheios de significados” (ex.: Rubem Braga, Manuel Bandeira, Raquel de Queiroz).

- Crônica-comentário: trata de vários assuntos diferentes (ex.: Machado de Assis e José de Alencar).

- Crônica-informação: esse tipo se aproximaria mais do sentido etimológico, por divulgar os fatos, comentando-os ligeiramente.

Massaud Moisés (1974) comenta dois tipos de crônica, baseado na questão da ambiguidade do gênero:

- Crônica-poema: prosa emotiva que chega ao verso (Carlos Drummond).

- Crônica-conto: o cronista narra um acontecimento que provoca sua atenção como se fosse um conto.




De uma bela imagem, um cronista faz o seu assunto 1.bp.blogspot.com







2)

Antes de iniciar a abordagem sobre a história da crônica no universo jornalístico, dois comentários que nos ajudarão a entender a função do gênero, o primeiro de Wellington Pereira (2004):

O cronista amplia este universo quando experimenta nos jornais várias linguagens, não se preocupando em dar aos leitores a verdadeira dimensão dos acontecimentos, mas introduzindo recursos estético-metodológicos, como a metáfora, que melhoram a compreensão de fatos sociais.

O segundo comentário, de Antonio Candido (1992):

A literatura corre risco com frequência, cujo resultado é quebrar no leitor a possibilidade de ver as coisas com retidão e pensar em consequência disto. Ora, a crônica está sempre ajudando a estabelecer ou restabelecer a dimensão das coisas e das pessoas. Em lugar de oferecer um cenário excelso, numa revoada de adjetivos e períodos candentes, pega o miúdo e mostra nele uma grandeza, uma beleza ou uma singularidade insuspeitadas. Ela é amiga da verdade e da poesia nas suas formas mais diretas e também nas suas formas mais fantásticas — sobretudo porque quase sempre utiliza o humor.

As duas observações constam da dissertação Crônica literária no jornal: história, estrutura e funcionamento, de Joselina Alves Cardoso (2008), que nos servirá como referência.

A marca de confluência entre jornalismo e literatura é o folhetim, surgido na década de 1830, na França — era um espaço de rodapé no jornal La Presse dedicado à publicação de textos para entretenimento dos leitores (de variados graus de escolaridade e de diferentes classes sociais). Nasceu, portanto, com o signo de produção voltada às massas, o que pressupunha uma linguagem simples e assuntos relacionados ao próprio noticiário do jornal.

Os folhetins, que já publicavam histórias em capítulos diários, evoluíram na década seguinte, quando passaram a publicar romances já acabados, mas divididos em capítulos, cada capítulo encerrando num ponto emocionante da narrativa, como estratégia para manter a fidelidade dos leitores e aumentar as vendagens do La Presse.

O folhetim chegou ao Brasil na primeira metade do século 19 e logo se tornou um sucesso absoluto. De acordo com Antonio Candido (1992), em 1838 chegava o primeiro folhetim francês, O capitão Paulo, de Alexandre Dumas, traduzido e publicado pelo Jornal do Comércio. Começava uma revolução nos jornais brasileiros.

Nos conta Cardoso (2008):

(...) a grande maioria dos escritores brasileiros do século 19 passou por jornais, como Joaquim Manoel de Macedo, Raul Pompéia, Aloísio Azevedo, Euclides da Cunha e Visconde de Taunay. Mas o primeiro passo rumo ao folhetim foi dado por Manuel Antônio de Almeida, que, em 1852, publicou Memórias de um sargento de milícias, nas páginas do Correio Mercantil. Outros autores brasileiros, como Machado de Assis e José de Alencar, começaram a publicar as suas obras, primeiro, nos periódicos, e, depois de garantir o sucesso entre o público leitor, as obras eram publicadas em livro: O guarani, de José de Alencar, apareceu publicado no Diário do Rio de Janeiro em 1857, e Cinco minutos começou a ser publicado em 1856, com o anúncio da venda do romance em 1857.

A crônica, portanto, nasceu com o objetivo de assumir o papel de intermediador entre o noticiário “sério” e a descrição de assuntos leves para o entretenimento do leitor. Com seu poder de captação das coisas miúdas, do cotidiano, funciona como uma espécie de “laboratório ficcional”, para usar uma expressão de Wellington Pereira (2004).

No século 19, como não havia faculdades de Jornalismo, boa parte da produção ficava a cargo de literatos, o que deixava as edições muito sérias, repletas de textos “pesados”, ainda subordinados a normas que regiam mais os textos literários que os próprios textos jornalísticos (numa concepção atual). A partir do início do século 20, com o desenvolvimento da economia e o surgimento de uma nova ordem social, os jornais vão se tornando mais informativos e menos literários, para, de um lado, dar conta de tantas informações que chegavam com a evolução das comunicações, e, de outro, para satisfazer as necessidades de leitores ávidos por notícias, e não por leituras que poderiam ser encontradas em livros de literatura.




Os folhetins eram mania popular no século 19 4.bp.blogspot.com







3)

Como você deve ter observado, nas duas crônicas sentimentos humanos são abordados: na primeira, o amor e a sensibilidade artística que, por serem verdadeiros, prescindem da ostentação, do exibicionismo. Na de Luis Fernando Veríssimo, o orgulho e a vaidade (ego), além do pão-durismo descarado de Picasso. Como reflexo da própria liberdade que o gênero concede ao autor, nas duas crônicas propostas, o desenvolvimento dos temas variou.

Rubem Braga optou por condensar o texto, extraindo disso o máximo de impacto com a exposição do fenômeno da produção de cores na plumagem do pavão e a imediata comparação com o amor que tem por sua amada. Antes, porém, em poucas palavras, disse o essencial, estabeleceu o elo de ligação que legitima a comparação: o verdadeiro está na simplicidade. E nada como um texto curto, feito de palavras usuais, para exprimir a ideia do simples. O lirismo, na dose certa, por meio de figuras de linguagem: oh! Minha amada (apóstrofe); o polissíndeto (repetição de conectivos) suscita e esplende e estremece e delira; a metáfora meus olhos recebendo a luz do teu olhar, em relação às “minúsculas bolhas d’água em que a luz se fragmenta”.

Na estrutura montada por Veríssimo, o autor não quis desperdiçar um verdadeiro achado “jornalístico”: a informação de que Picasso tinha o costume de não pagar contas com dinheiro (embora as pagasse em “obras” que, por terem sido feitas por um artista famoso, acabavam valendo mais que os artigos consumidos). Luis Fernando Veríssimo desenvolveu a ideia, com exemplos variados de “pagamentos”, permitindo ao leitor entreter-se e deliciar-se com algo tão inusitado. Com isso, o autor também valorizou o desfecho da crônica: a existência de alguém que, por brincadeira ou não, teve a ousadia de pagar um dos homens mais famosos do mundo na mesma moeda — a do próprio artista. Convenhamos, não é pouca coisa.

De forma esquemática, o que vimos nas duas crônicas: um título curto, sintetizador da ideia que norteia a crônica; uma introdução do fato ou circunstância que motivou o texto; o desenvolvimento do tema, com parágrafo novo a cada ideia ou situação nova; e a conclusão, fechando a reflexão do autor.

A crônica, por sua complexidade, a despeito da aparente simplicidade, permite diversas modalidades de estrutura. Por isso a dificuldade em designar um modelo que abarque crônicas as mais diversas escritas por cronistas os mais diversos.




Um desenho de Pablo Picasso 4.bp.blogspot.com







4)

A crônica Na lotação, de Carlos Drummond de Andrade, é de 1966, tempo em que era permitido fumar em lugares públicos fechados, como ônibus e cinemas. Talvez isto tenha lhe provocado certo estranhamento, mas a fumaceira corria solta mesmo.

Com relação às características do texto, percebe-se de imediato a maestria de Drummond em captar nas mais prosaicas coisas do cotidiano o que vai na alma do ser humano. Descreve o que está acontecendo no ônibus e, ao mesmo tempo, especula sobre o que o vai na cabeça do personagem (o rapaz que cantarolava uma música) e na dos demais passageiros — mas o faz dando um sentido universal aos sentimentos, ao evocar o lírico, o poético.

Ale Gennari (s/d) faz as seguintes observações sobre a crônica:

Como cronista-poeta, Drummond não inventa sensações, mas as registra, usando seus recursos estilísticos (a síntese, o ritmo adequado, o jogo de imagens e um humor refinado), sempre consciente de que a crônica oscila entre o visto e o imaginado. Como na poesia, a crônica também ensina que o homem se encontra no que está fora do homem. Ao narrar o mundo, o cronista narra a si mesmo. Alguns estudiosos da narrativa curta acreditam que a crônica é um gênero tipicamente carioca. Em um de seus livros há um capítulo chamado Cariocas, no qual o fator que motiva os textos é a relação entre o morador e sua cidade. Particularizando o Rio, Drummond mergulha no mesmo mar de significados: o ser humano tentando compreender o mundo a sua volta a partir da sua própria relação com outros seres, objetos e fatos, por mais transitórios que sejam.

Mas quem melhor, para falar do Drummond cronista e da arte de escrever crônicas, que o próprio Drummond? Então, leia a última crônica escrita por Carlos Drummond de Andrade, publicada no Jornal do Brasil em 29 de setembro de 1984, na qual ele se despede de seus leitores, fazendo um balanço de sua atividade e agradecendo aos que o acompanharam por anos nas páginas do jornal (extraído do site Alguma Poesia).

 

Ciao

Há 64 anos, um adolescente fascinado por papel impresso notou que, no andar térreo do prédio onde morava, um placar exibia a cada manhã a primeira página de um jornal modestíssimo, porém jornal. Não teve dúvida. Entrou e ofereceu os seus serviços ao diretor, que era, sozinho, todo o pessoal da redação. O homem olhou-o, cético, e perguntou:

― Sobre o que pretende escrever?

― Sobre tudo. Cinema, literatura, vida urbana, moral, coisas deste mundo e de qualquer outro possível.

O diretor, ao perceber que alguém, mesmo inepto, se dispunha a fazer o jornal para ele, praticamente de graça, topou. Nasceu aí, na velha Belo Horizonte dos anos 20, um cronista que ainda hoje, com a graça de Deus e com ou sem assunto, comete as suas croniquices.

Comete é tempo errado de verbo. Melhor dizer: cometia. Pois chegou o momento deste contumaz rabiscador de letras pendurar as chuteiras (que na prática jamais calçou) e dizer aos leitores um ciao-adeus sem melancolia, mas oportuno.

Creio que ele pode gabar-se de possuir um título não disputado por ninguém: o de mais velho cronista brasileiro. Assistiu, sentado e escrevendo, ao desfile de 11 presidentes da República, mais ou menos eleitos (sendo um bisado), sem contar as altas patentes militares que se atribuíram esse título. Viu de longe, mas de coração arfante, a Segunda Guerra Mundial, acompanhou a industrialização do Brasil, os movimentos populares frustrados mas renascidos, os ismos de vanguarda que ambicionavam reformular para sempre o conceito universal de poesia; anotou as catástrofes, a Lua visitada, as mulheres lutando a braço para serem entendidas pelos homens; as pequenas alegrias do cotidiano, abertas a qualquer um, que são certamente as melhores.

Viu tudo isso, ora sorrindo ora zangado, pois a zanga tem seu lugar mesmo nos temperamentos mais aguados. Procurou extrair de cada coisa não uma lição, mas um traço que comovesse ou distraísse o leitor, fazendo-o sorrir, se não do acontecimento, pelo menos do próprio cronista, que às vezes se torna cronista do seu umbigo, ironizando-se a si mesmo antes que outros o façam.

Crônica tem essa vantagem: não obriga ao paletó-e-gravata do editorialista, forçado a definir uma posição correta diante dos grandes problemas; não exige de quem a faz o nervosismo saltitante do repórter, responsável pela apuração do fato na hora mesma em que ele acontece; dispensa a especialização suada em economia, finanças, política nacional e internacional, esporte, religião e o mais que imaginar se possa.

Sei bem que existem o cronista político, o esportivo, o religioso, o econômico etc., mas a crônica de que estou falando é aquela que não precisa entender de nada ao falar de tudo. Não se exige do cronista geral a informação ou comentários precisos que cobramos dos outros. O que lhe pedimos é uma espécie de loucura mansa, que desenvolva determinado ponto de vista não ortodoxo e não trivial e desperte em nós a inclinação para o jogo da fantasia, o absurdo e a vadiação de espírito.

Claro que ele deve ser um cara confiável, ainda na divagação. Não se compreende, ou não compreendo, cronista faccioso, que sirva a interesse pessoal ou de grupo, porque a crônica é território livre da imaginação, empenhada em circular entre os acontecimentos do dia, sem procurar influir neles. Fazer mais do que isso seria pretensão descabida de sua parte. Ele sabe que seu prazo de atuação é limitado: minutos no café da manhã ou à espera do coletivo.

Com esse espírito, a tarefa do croniqueiro estreado no tempo de Epitácio Pessoa (algum de vocês já teria nascido nos anos a.C. de 1920? duvido) não foi penosa e valeu-lhe algumas doçuras. Uma delas ter aliviado a amargura de mãe que perdera a filha jovem. Em compensação, alguns anônimos e inominados o desancaram, como a lhe dizerem: “É para você não ficar metido a besta, julgando que seus comentários passarão à História”. Ele sabe que não passarão. E daí? Melhor aceitar as louvações e esquecer as descalçadeiras.

Foi o que esse outrora-rapaz fez ou tentou fazer em mais de seis décadas. Em certo período, consagrou mais tempo a tarefas burocráticas do que ao jornalismo, porém jamais deixou de ser homem de jornal, leitor implacável de jornais, interessado em seguir não apenas o desdobrar das notícias como as diferentes maneiras de apresentá-las ao público. Uma página bem diagramada causava-lhe prazer estético; a charge, a foto, a reportagem, a legenda bem feitas, o estilo particular de cada diário ou revista eram para ele (e são) motivos de alegria profissional. A duas grandes casas do jornalismo brasileiro ele se orgulha de ter pertencido ― o extinto Correio da Manhã, de valente memória, e o Jornal do Brasil, por seu conceito humanístico da função da Imprensa no mundo. Quinze anos de atividade no primeiro e mais 15, atuais, no segundo, alimentarão as melhores lembranças do velho jornalista.

E é por admitir esta noção de velho, consciente e alegremente, que ele hoje se despede da crônica, sem se despedir do gosto de manejar a palavra escrita, sob outras modalidades, pois escrever é sua doença vital, já agora sem periodicidade e com suave preguiça. Ceda espaço aos mais novos e vá cultivar o seu jardim, pelo menos imaginário.

Aos leitores, gratidão, essa palavra-tudo.




O JB, que Drummond enriqueceu por 15 anos com suas crônicas, estampa a morte do escritor em sua edição de 18 de agosto de 1987 jblog.com.br







5)

A trajetória de Arnaldo Jabor no ambiente cultural brasileiro, iniciada ainda nos anos 1960, o qualifica como uma das vozes mais respeitáveis do Brasil. Suas posições polêmicas, assumidas em jornais como a Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo, não raro dividem opiniões de forma radical.

Talvez em razão de sua capacidade argumentativa, das metáforas e ironias que descredenciam os oponentes no debate de ideias, da fala franca, direta. De qualquer modo, as crônicas de Jabor quase sempre marcam forte presença, muitas delas servindo à opinião pública nacional como uma espécie de lanterna que, em meio à escuridão decorrente da desinformação geral e das infinitas versões sobre os mesmos fatos, clareia os pensamentos do leitor.

Se as crônicas de Arnaldo Jabor não possuem o lirismo das de um Drummond de Andrade ou de um Rubem Braga, tanto melhor: ganhamos em outro campo, o da interpretação jornalística dos fatos. Como cineasta, crítico, jornalista, escritor e humanista, possui a capacidade de contextualizar de forma objetiva a informação, interligando fatos aparentemente desconexos. Por transitar por áreas diversas, domina também formas variadas de comunicação — no jornal, o texto; na TV e no cinema, a imagem; no rádio, o ritmo das frases, a entonação da voz. E, ao expressar-se em cada uma dessas modalidades, importa das demais os recursos de persuasão.  Passemos às duas crônicas.

Na primeira, Amor vem antes e sexo vem depois, ou não, o jornalismo está presente na menção a fatos que estão nos noticiários — invasão de propriedades, Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), latifúndio, crimes passionais (o ódio matando o amor), referência a doenças sexualmente transmissíveis (“no sexo, a morte está ali, nas bocas”), a informação de que “o amor foi inventando pelos poetas provençais do século 12, concepções de cunho econômico (“o amor domado protege a produção”, “indústria das sacanagens”).

Os recursos do cinema — visuais — são adaptados para o campo do texto. As frases curtas e de significados contrastantes ("amor é isso, sexo é aquilo"), funcionam como cortes de planos que nos fazem visualizar mais do que pensar (“amor é bossa nova, sexo é carnaval”). Esses mesmos recursos também podem ser considerados da seara da Literatura — funcionam como antíteses, embora latifúndio não seja exatamente o oposto de MST. Só os tomamos como contrários porque nos informamos a respeito por meio do jornalismo.

Quanto à segunda crônica, o próprio tema já nos remete à linguagem do cinema. Quem está opinando sobre os dois filmes não é apenas jornalista, é cineasta. E faz isso num tom que parece não admitir contestação, como frisou a mestre Marister, pois Jabor, contextualizando tudo, transmite a ideia de que é conhecedor plenipotenciário dos fatos. Essa impressão que tem o leitor, sem que dela tome consciência plena, é produzida pelo domínio das técnicas literárias, e não apenas pelo conhecimento que o autor tenha do mundo cinematográfico em si. O objetivo (tal filme foi lançado no ano tal, informação de repórter) mescla-se com o subjetivo (filme-ufanista, opinião de um crítico, que pode ser diferente do conceito que tenha outro crítico ou um espectador comum).

O literário apresenta-se em frases como “Não era preciso ser profeta para ver nosso triste presente nos filmes americanos dos anos 90” — não temos aqui informação objetiva, nem mesmo sabemos se todo mundo concorda com essa ideia, mas o discurso está construído como se estivéssemos falando de uma verdade tão cristalina que ninguém dela é capaz de discordar. Certas expressões que pertencem ao universo literário — e aqui o cinema delas pode se apropriar, pela evocação de imagens — enriquecem o texto, estimulando a imaginação do leitor. Exemplos: “cozinhadas no fogão das bruxas. Dava para ouvi-las cantando...”, “Ku Klux Klan do Capitólio”, “fogos-fátuos”, “habitante ideal da sociedade conformista do futuro”, “a América é destruída com fogo e sangue, espatifada com amor e ódio”, “delírio de ruína”, “o Godzilla republicano já andava solto”, e as duas frases finais, de efeito: “A ficção virou realidade? Ou será o contrário?”.

Atenção!

Você tem à disposição dois objetos educacionais que podem ajudar na compreensão do hibridismo das linguagens. O primeiro é um vídeo de uma crônica de Jabor na Rede Globo. Preste atenção na teatralidade, nos gestos, na ênfase a certas palavras, nas caretas para descredenciar o criticado, no ritmo da fala, na rápida sucessão de argumentos, tudo para impor a “totalidade dialética”, de que nos falou acima a professora, e para converter o literário (crônica) em cinema (no caso, TV). O segundo é a canção de Rita Lee, Amor é prosa, sexo é poesia, produzida a partir da crônica de Jabor.

Divirta-se e pense a respeito.




Forrest Gump com John Lennon, em mais uma cena de sucesso do filme images.pictureshunt.com



Vídeo


Hipertexto

6)

Escrever sobre a falta de assunto é uma espécie de tradição entre os cronistas, embora cada um deles se esforce ao máximo para que este dia nunca chegue. Mas é algo quase que inevitável, mesmo porque a crônica tem por característica debruçar-se sobre o cotidiano e os temas relacionados ao noticiário. Não é coisa que se faça com antecedência, que se produza em quantidade suficiente a ponto de o cronista dispor de uma reserva que lhe garanta um abastecimento confiável e perene.

Além disso, o cronista, se quiser escrever com antecedência e em quantidade, corre o risco de ver parte de sua produção ser atropelada por eventos futuros. A exigência de trabalhar praticamente de mãos dadas com o jornalismo faz do cronista também um operário das palavras — precisa ser rápido, sem que a rapidez implique em desvalorização do fazer literário. É, portanto, um trabalho que não depende só da inspiração, mas, principalmente, da transpiração, do esforço. O exercício metalinguístico dos cronistas centra-se, em geral, nesta “confissão de culpa".

No texto, Sabino mostra que o ofício do cronista é muitas vezes penoso, a começar pelo trabalho de garimpagem, que pode se tornar um tormento caso o tempo para encontrar um bom assunto se estenda demais — “Na realidade, estou adiando o tempo de escrever. A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado...”. O bom assunto não é um fato de proporções, a crônica diária dele não se nutre, na maioria das vezes. Primeiro, porque fatos de grandes proporções não ocorrem todos os dias. Depois, porque o lírico, aquilo que o escritor vai esgrimir para atingir a alma do leitor, e que fará este leitor sentir-se de certa forma personagem de sua própria crônica de vida, precisa ser um fato do cotidiano.

Para a maioria das pessoas, a vida transcorre numa sucessão de acontecimentos comuns, e só esporadicamente alguma coisa diferente ou de vulto acontece. Uma das funções da crônica é justamente a de imprimir um sentido nessa sucessão de eventos comuns. A valorização do sentimento, da capacidade de apreender o poético, de perscrutar a magia e a beleza do mundo sob a aparente esterilidade da rotina são importantes não apenas para aquele que escreve uma crônica, mas para todos os que vivem. Daí a identificação e a cumplicidade entre cronista e leitor de que falam os críticos e estudiosos.




Sísifo, personagem da mitologia grega, condenado a passar a eternidade empurrando uma pedra montanha acima. O jornalista, que todos os dias conta os últimos acontecimentos, também rola a sua pedra. lendareinholdmessner.files.wordpress.com






Vamos resolver?

1)

(Contexto Digital) Paulo Mendes Campos Belo Horizonte, 1922/Rio de Janeiro, 1991 é um dos maiores nomes da crônica brasileira. A seguir uma crônica sua, que servirá para as questões 1 e 2:

 

Brasil brasileiro

 

Uma vez, numa recepção da nossa embaixada em Londres, uma dama inglesa, depois de ouvir Aquarela do Brasil, estranhou ironicamente a associação dos termos “Brasil brasileiro”. A França é francesa, dizia, a Inglaterra é inglesa, o Afeganistão é afegane, sem que se precise dizer… Minha senhora, respondeu-lhe alguém, é que o Brasil é muito brasileiro, é o único país brasileiro do mundo, e só quem nos conheça bem será capaz de entender isso…

Em fase de transição econômica há alguns anos, em fase de reforma desde a mudança do governo, às vezes penso que o Brasil corre o risco de se tornar pouco brasileiro em alguns sintomas essenciais da nossa maneira coletiva de ser. Nem sempre é fácil distinguir as virtudes e os defeitos tipicamente brasileiros, havendo possibilidade de muitos erros de conceituação.

Dentro da relatividade histórica, Dom Pedro I foi muito brasileiro; Dom Pedro II igualmente. Pois eu acho que o primeiro possuía vários defeitos essenciais ao caráter brasileiro, enquanto o segundo cultivava virtudes que podiam ser banidas da nossa formação, virtudes bastante monótonas ou bobocas.

A impontualidade em si é um mal; no Brasil, entretanto, ela é necessária, uma defesa contra o clima e as melancolias do subdesenvolvimento. Deixar para amanhã o que se pode fazer hoje é outro demérito que não se pode extinguir da alma nacional.

Uma finta de Garrincha, uma cabeçada de Pelé, uma folha-seca de Didi são parábolas perfeitas do comportamento brasileiro diante dos problemas da existência. Eles maliciam, eles inventam, eles dão um jeitinho. Já cuspir no chão e insultar as formas elementares da higiene são também constantes brasileiras, mas devem ser combatidas furiosamente.

Ter terror à pena de morte é um sentimentalismo brasileiro da mais fina intuição progressista; cultivar o entreguismo da saudade já me parece uma capitulação inútil.

“Deixa isso pra lá” é uma simpática fórmula do perdão nacional; já o “rouba mas faz” é uma ignorância vertiginosa. Valorizar em partes iguais a ação e o devaneio (dum lado o trabalho, do outro sombra e água fresca) é uma intuição brasileira que promete uma síntese do dinamismo do Ocidente e da contemplação oriental.

O andar da mulher brasileira, como o café, é uma das grandes riquezas pátrias. Aliás, o café chegou até nós muito brasileiramente: o sargento Palheta recebeu gentilmente as mudas das mãos da condessa d’Orvilliers, mulher do governador da Guiana Francesa. “Nous étions doublement cocus!”, exclamou com espírito um escritor francês.

Mas o ostensivo e verboso donjuanismo brasileiro, sobretudo no exterior, é uma praga. Achar-se irresistível é uma das constantes mais antipáticas do homem verde-e-amarelo. O relato impudente de façanhas amorosas, a mitomania erótica, o desrespeito agressivo à dignidade da mulher são desgraçadamente coisas muito brasileiras. A instituição do “faixa”, do “meu chapa”, é cem por cento brasileira, desde que seja gratuita; o detestável tráfico de influência não é nosso. Dar um jeito é bom; dar o golpe é mau.

A sagacidade de Minas, a fidalguia do sul, a combatividade do nordeste são características brasileiras; o dinamismo organizado de São Paulo não é tão nosso assim, mas é necessário. Para Capistrano de Abreu, o jaburu simbolizara o Brasil; São Paulo foi o primeiro estado a superar a tristonha fase do jaburu. E Macunaíma ainda representa o brasileiro? E Jeca Tatuzinho? O tempo passou: Macunaíma comprou naturalmente uma lambreta, mas, em compensação, estuda economia ou física nuclear; os filhos de Jeca Tatuzinho são hoje playboys, contrabandistas ou industriais, nesta imensa misturada contraditória que é o Brasil.

Resta, por fim, como espantalho gritantemente brasileiro, vergonhosamente brasileiro, o pobre, o nosso compatriota de pé no chão, destroçado pelos parasitas, cegado pelo tracoma, morando em casebres de barro, palafitas, mocambos, favelas, coberto de feridas, analfabeto, mal alimentado, vestido de farrapos, pobre criatura humana, pobre bicho humano, pobre coisa humana, pobre brasileiro humano.

 

Crônica extraída do livro Brasil brasileiro: crônicas do país, das cidades, do povo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005, p. 15 - 17.

 

Na crônica, o autor retrata o brasileiro:

 

a) De forma cruel, expondo defeitos que poderiam ser eliminados em curto espaço de tempo por meio da educação.

b) Sob o rigor acadêmico, analisando as causas da formação da sociedade nacional.

c) Com bom humor, demonstrando simpatia pela cordialidade e inventividade do povo, mas sem deixar de identificar características que denotam o relativo atraso do Brasil em relação aos países ricos.

d) Com indiferença, uma vez que o autor utiliza o olhar do estrangeiro para nos caracterizar.

e) Com profundo orgulho, colocando-o acima das outras nacionalidades.


Paulo Mendes Campos http://www.mondobhz.com.br

c


2)

(Contexto Digital) Identifique a opção que reproduz um trecho da crônica Brasil brasileiro em que Paulo Mendes Campos lança mão de imagens para sintetizar o espírito do brasileiro:

 

a) "Deixa isso pra lá" é uma simpática fórmula do perdão nacional; já o "rouba mas faz" é uma ignorância vertiginosa.

b) Valorizar em partes iguais a ação e o devaneio (dum lado o trabalho, do outro sombra e água fresca) é uma intuição brasileira que promete uma síntese do dinamismo do Ocidente e da contemplação oriental.

c) Achar-se irresistível é uma das constantes mais antipáticas do homem verde-e-amarelo.

d) Uma finta de Garrincha, uma cabeçada de Pelé, uma folha-seca de Didi são parábolas perfeitas do comportamento do brasileiro diante dos problemas da existência.

e) Resta, por fim, como espantalho gritantemente brasileiro, vergonhosamente brasileiro, o pobre, o nosso compatriota de pé no chão, destroçado pelos parasitas, cegado pelo tracoma, morando em casebres de barro...


Estátuas do Encontro marcado: homenagem aos autores Otto Lara Resende; Fernando Sabino; Paulo Mendes Campos e Hélio Pellegrino belohorizonte.mg.gov.br

d


3)

(Contexto Digital) Leia a crônica Ao respeitável público, de Rubem Braga, publicada no Diário de São Paulo, em 1934.

 

Ao respeitável público

 

Chegou meu dia. Todo cronista tem seu dia em que, não tendo nada a escrever, fala da falta de assunto. Chegou meu dia. Que bela tarde para não se escrever!

Esse calor que arrasa tudo; esse Carnaval que está perto, que vem aí no fim da semana; esses jornais lidos e relidos na minha mesa, sem nada interessante; esse cigarro que fumo sem prazer; essas cartas na gaveta onde ninguém me conta nada que possa me fazer mal ou bem; essa perspectiva morna do dia de amanhã; essa lembrança aborrecida do dia de ontem; outra vez, e sempre, esse calor, esse calor, esse calor...

Portanto, meu distinto leitor, minha encantadora leitora, queiram ter a fineza de retirar os olhos desta coluna. Não leiam mais. Fiquem sabendo que eu secretamente os odeio a todos; que vocês todos são pessoas aborrecidas e irritantes; que eu desejo sinceramente que todos tenham um péssimo Carnaval, uma horrível quaresma, um infelicíssimo ano de 1934, uma vida toda atrapalhada, uma morte estúpida!

Aproveitem este meu momento de sinceridade e não se iludam com o que eu disser amanhã ou depois, com a minha habitual falta de vergonha. Saibam que o desejo mais sagrado que tenho no peito é mandar vocês todos simplesmente às favas, sem delicadeza nenhuma.

Por que ousam gostar ou aborrecer o que escrevo? O que têm comigo? Acaso me conhecem, sabem alguma coisa de meus problemas, de minha vida? Então, pelo amor de Deus, desapareçam desta coluna. Este jornal tem dezenas de milhares de leitoras; por que é que, no meio de tanta gente, vocês, e só vocês, resolveram ler o que escrevo? O jornal é grande, senhorita, é imenso cavalheiro, tem crimes, tem esporte, tem política, tem cinema, tem uma infinidade de coisas. Aqui nesta coluna, eu nunca lhes direi nada, mas nada de nada, que sirva para o que quer que seja. E não direi porque não interessa; porque vocês não me agradam; porque eu os detesto.

Portanto, se a senhorita é bastante teimosa, se o cavalheiro é bastante cabeçudo para me ter lido até aqui, pensem um pouco, sejam bem educados e deem o fora. Eu faço votos para que todos vocês amanheçam amanhã atacados de febre amarela ou de tifo exantemático. Se houvesse micróbios que eu pudesse lhes transmitir assim, através do Jornal, pelos olhos, fiquem sabendo que hoje eu lhes mandaria as piores doenças: tracoma, por exemplo.

Mas ainda insistem? Ah, se eu pudesse escrever aqui alguns insultos e adjetivos que tenho no bico da pena! Eu lhes garanto que não são palavras nada amáveis: são dessas que ofendem toda a família. Mas não posso e não devo. Eu tenho de suportar vocês diariamente, sem descanso e sem remédio. Vocês podem virar a página, podem fugir de mim quando entenderem. Eu tenho de estar aqui todo dia, exposto à curiosidade estúpida ou à indiferença humilhante de dezenas de milhares de pessoas.

Fiquem sabendo que eu hoje tinha assunto e os recusei todos. Eu poderia, se quisesse, neste momento, escrever duzentas crônicas engraçadinhas ou tristes, boas ou imbecis, úteis ou inúteis, interessantes ou cacetes. Assunto, não falta, porque eu me acostumei a aproveitar qualquer assunto. Mas eu quero hoje precisamente falar claro a vocês todos. Eu quero, pelo menos hoje, dizer o que sinto todo dia: dizer que se eu os aborreço, vocês me aborrecem terrivelmente mais.

Amanhã eu posso voltar bonzinho, manso, jeitoso, posso falar bem de todo mundo, até do governo, até da polícia. Saibam, desde já, que eu farei isto porque sou cretino por profissão; mas que com todas as forças da alma eu desejo que vocês todos morram de erisipela ou de peste bubônica.

Até amanhã. Passem mal.

 

A crônica foi retirada da dissertação A crônica literária no jornal: história, estrutura e funcionamento, de Joselina Alves Cardoso.

 

Sobre a técnica utilizada pelo cronista, NÃO é correto afirmar:

 

a) Trata-se de um exercício metalinguístico, isto é, o cronista escreve sobre o escrever.

b) Embora numa primeira impressão pareça ofensiva, a linguagem da crônica é perfeita, pois Rubem Braga sabe que existe uma cumplicidade entre o cronista e seus leitores.

c) Os argumentos expostos ao leitor para que encerre prematuramente a leitura funcionam, na verdade, como atrativo para a apreensão da atenção desse leitor.

d) O autor diz que a criação de um texto literário decorre facilmente da inspiração, não havendo esforço algum para sua produção.

e) O autor, ao dizer que nunca dirá nada de interessante ao leitor, na verdade está, de forma irônica, falando da grande dificuldade da crônica: captar o interessante, o perene, o lírico na profusão de coisas miúdas do cotidiano.


O que têm comigo? Acaso me conhecem, sabem alguma coisa de meus problemas, de minha vida? nuno-morais.eu

d


4)

Humberto de Campos, um dos maiores cronistas brasileiros, foi também jornalista, político, crítico, contista, poeta, biógrafo e memorialista. Nasceu em Miritiba (hoje Humberto de Campos), pequena cidade do Maranhão, em 25 de outubro de 1886, e faleceu no Rio de Janeiro, em 5 de dezembro de 1934. O humor é um dos traços marcantes de seu estilo. Leia a crônica O gramático, publicada inicialmente no jornal O Imparcial, e depois no livro Antologia de Humorismo e Sátira (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1957, pag. 250).

 

O gramático

Alto, magro, com os bigodes grisalhos a desabar, como ervas selvagens pela face de um abismo, sobre os cantos da funda boca munida de maus dentes, o professor Arduíno Gonçalves era um desses homens absorvidos completamente pela gramática. Almoçando gramática, jantando gramática, ceando gramática, o mundo não passava, aos seus olhos, de um enorme compêndio gramatical, absurdo que ele justificava repetindo a famosa frase do Evangelho de João:

— No princípio era o VERBO!

Encapado pela gramática, e às voltas, de manhã à noite, com os pronomes, com os adjetivos, com as raízes, com o complicado arsenal que transforma em um mistério a simplicíssima arte de escrever, o ilustre educador não consagrava uma hora sequer às coisas do seu lar. Moça e linda, a esposa pedia-lhe, às vezes, sacudindo-lhe a caspa do paletó esverdeado pelo tempo:

— Arduíno, põe essa gramatiquice de lado. Presta atenção aos teus filhos, a tua casa, a tua mulher! Isso não te põe para diante!

Curvado sobre a grande mesa carregada de livros, o cabelo sem trato a cair, como falripas de aniagem, sobre as orelhas e a cobrir o colarinho da camisa, o notável professor retirava dos ombros a mão cariciosa da mulher, e pedia-lhe, indicando a estante:

— Dá-me dali o Adolfo Coelho.

Ou:

— Apanha, aí, nessa prateleira, o Gonçalves Viana.

Desprezada por esse modo, Dona Ninita não suportou mais o seu destino: deixou o marido com as suas gramáticas, com os seus dicionários, com os seus volumes ponteados de traça, e começou a gozar a vida passeando, dançando e, sobretudo, palestrando com o seu primo Gaudêncio de Miranda, rapaz que não conhecia o padre Antônio Vieira, o João de Barros, o frei Luís de Sousa, o Camões, o padre Manuel Bernardes, mas que sabia, como ninguém, fazer sorrir as mulheres.

— Ele não prefere, a mim, aquela porção de alfarrábios que o rodeiam? Então, que se fique com eles!

E passou a adorar o Gaudêncio, que a encantava com a sua palestra, com o seu bom humor, com as suas gaiatices, nas quais não figuravam, jamais, nem Garcia de Rezende, nem Gomes Eanes de Azurara, nem Rui de Pina, nem Gil Vicente, nem, mesmo, apesar do seu mundanismo, D. Francisco Manuel de Melo.

Assim viviam, o professor, com seus puristas e Dona Ninita com o seu primo, quando, de regresso, um dia, ao lar, o desventurado gramático surpreendeu a mulher nos braços musculosos, mas sem estilo, de Gaudêncio de Miranda. Ao abrir-se a porta, os dois culpados empalideceram, horrorizados. E foi com o pavor no coração que o rapaz se atirou aos pés do esposo traído, pedindo súplice, de joelho:

— Me perdoe, professor!

Grave, austero, sereno, duas rugas profundas sulcando a testa ampla, o ilustre educador encarou o patife, trovejando, indignado:

— Corrija o pronome, miserável! Corrija o pronome!

E, entrando no gabinete, começou, cantarolando, a manusear os seus clássicos...

 

A crônica O gramático:

 

a) Expressa de forma bem humorada o ridículo dos que desejam o engessamento do idioma, pela via da criação de um sem-número de regras gramaticais que, muitas vezes, mais complicam do que ajudam a criação literária e a simples transmissão de uma ideia qualquer.

b) É uma parábola que retrata justamente o que uma crônica deve apresentar: simplicidade e coloquialidade.

c) Pelo humor, sarcasmo e ironia, evidencia que os puristas afastam-se da fonte de renovação da linguagem: a própria fala coloquial da população.

d) Nenhuma das alternativas.

e) Todas as alternativas.


Humberto de Campos mariazenith.files.wordpress.com

e


5)

(Contexto Digital) Ainda sobre a crônica O gramático, na Bíblia (Evangelho de João), o termo “Verbo” significa Deus. Já o professor utiliza a expressão:

 

a) Para frisar a importância do respeito às normas gramaticais. Sem isso, não há comunicação eficiente.

b) De modo a, alegoricamente, mostrar que a ação é o que move o mundo. A categoria gramatical verbo indica ação.

c) Para mostrar que o mundo só evoluiu porque desde o início a humanidade preocupou-se em estabelecer regras para tornar eficiente a comunicação.

d) Estritamente no sentido gramatical, isolando a expressão de seu sentido bíblico.

e) Para estimular as pessoas a respeitarem a gramática.


Responda com atenção! 007blog.net

d


6)

Leia as seguintes proposições para a subdivisão do gênero crônica, segundo Antonio Candido, em A vida ao rés-do-chão, 1992:

 

I – O cronista e seu interlocutor se revezam trocando pontos de vista e informações.

II – A crônica apresenta alguma estrutura de ficção, semelhante ao conto.

III - Narrativa poética da vida de alguém.

IV - Divagação sobre um acontecimento ou personalidade, tecendo uma série de associações.

 

A alternativa correspondente às definições de Candido é:

 

a) Crônica alternativa, crônica ficcional, crônica exposição poética, crônica narrativa.

b) Crônica biográfica lírica, crônica narrativa, crônica exposição poética, crônica personalista.

c) Crônica-diálogo, crônica estrutural, crônica biográfica lírica, crônica do cotidiano.

d) Crônica do cotidiano, crônica ficcional, crônica exposição poética, crônica narrativa.

e) Crônica-diálogo, crônica narrativa, crônica biográfica lírica, crônica exposição poética.


Antonio Candido 3.bp.blogspot.com

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